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os bastidores do primeiro ouro do Brasil no Rio 2016

O Rio2016.com assistiu aos dois combates finais ao lado da família de Rafaela Silva, campeã Olímpica de judô

Em família: os bastidores do primeiro ouro do Brasil no Rio 2016

Montagem: Rio 2016/André Naddeo e Getty Images / David Ramos

Sabe aquela velha máxima de que você entende a personalidade da pessoa após conhecer seus pais? Esta é a lição aprendida por quem acompanhou ao lado da família da judoca Rafaela Silva a conquista do primeiro ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Mais do que isso: o lugar mais alto do pódio é de uma mulher negra e criada na comunidade da Cidade de Deus, a mais famosa das comunidades do Rio. Uma lição de perseverança e humildade de quem sempre contou com o apoio de Raquel Silva, irmã e maior incentivadora, Luiz Carlos Silva, o pai, Zenilda Lopes da Silva, a mãe, além de Ana Carolina Silva, a sobrinha. Foi com eles que me sentei, ou melhor, me espremi nas arquibancadas.

“Deixa eu me encaixar nesse bonde aí”, avisou a técnica da seleção brasileira de judô, Rosicleia Campos, aquela dos gestos e gritos de torcedora. Não era íntimo de ninguém, mas nos apertamos todos, enquanto dona Zenilda mostrava estar mais tensa. A neta, Ana Carolina, não largava o celular. Enquanto seu Luiz Carlos transparecia tranquilidade ao ouvir os gritos de “olê, olê, olê, olá, Rafa, Rafa”. A judoca entrou no tatame sem olhar para nenhum familiar – uma técnica e outras duas amigas também estavam presentes. “É o jeito dela, só se comunica com a irmã na hora das lutas”, me confessaria o pai mais tarde, o que explicou o fato de Raquel ter se dirigido à grade de separação. Junto de Rosicleia, claro.

Um wazari diante da romena Corina Caprioriu, posteriormente retirado após nova avaliação dos árbitros, teve o mesmo gostinho do gol anulado na final da Copa do Mundo. “Vamos gritar”, pedia Rosicleia, já com lágrimas nos olhos. A sintonia de Raquel e Rafaela seguia intacta: a luta no golden score gerava nervosismo em todos, menos nas irmãs. Enfim, metade do corpo da romena tocou o solo. Dessa vez valeu. Êxtase nas arquibancadas. Exatamente no momento em que ‘Seu’ Luiz Carlos, como uma flecha, atravessa as arquibancadas e deixa o ginásio. Resolvi seguir.

Luiz Carlos e o “cigarrinho”: tentativa de relaxar em meio às lutas da filha (foto: Rio 2016/André Naddeo)

“Eu não aguento isso aqui, não”, confessou no fumódromo, naquelas tragadas fortes que parecem consumir todo o cigarro de uma vez. “Eu não gosto de ver luta dela, só vim porque a Raquel me insistiu muito”, completou. Aos poucos, alguns torcedores, pela camiseta que ele vestia, com o rosto e o nome da filha, começaram a parar para conversar. Não era boteco, nem mesa de bar, mas a resenha foi sincera. “Se eu morrer amanhã, morro feliz, pois sei que a minha filha terá uma medalha Olímpica no peito”. Confessou ainda que “eu não choro por pouco”, lembrando que a última vez que isso aconteceu “foi quando carreguei o caixão da minha mãe”.

Lembra ainda que nesse momento “está toda a família na Cidade de Deus ligada na TV, todo mundo nervoso, não para de chegar mensagem”. Fez questão de frisar o mais chorão da família: seu pai, avô da Rafaela, ‘Seu’ José Moisés Silva: “Você não dá 82 anos para o velho, mas ele quebrou a perna lá em Caxias e está de cama”.

Volta estratégica, e poucos minutos depois, o anúncio do combate: “olelê, olalá, a Rafa vem aí e o bicho vai pegar”, cantam os brasileiros, em uníssono. Nos segundos iniciais, Raquel, de volta à grade, diz: “Agarra o quimono com calma, mentaliza”. Um golpe em análise elevou os pedidos por um ippon, que encerraria o drama e traria o êxtase. Mas ele veio com o wazari na sequência. Aos 24 anos, experiente, Rafaela Silva administrou muito bem sua vantagem. Ajoelhou. Comemorou. Chorou. “Ela queria parar de lutar, você não tem noção”, explicou a mãe.

Dona Zenilda vai às lágrimas: a filha é ouro, é campeã Olímpica (foto: RIo 2016/André Naddeo)

“Foi muito especial. A Rafaela é uma pessoa muito humilde. Comprou convites para todo mundo. Para os amigos todos. Mandou fazer camiseta, boné, ela queria todo mundo aqui”, completou dona Zenilda, comemorando não só a medalha, mas a honra de ser mãe da única judoca da história do Brasil campeã mundial (em 2013, também no Rio) e Olímpica. Feito que mesmo os homens não igualaram. “Ela prometeu que iria erguer uma nova laje lá na Taquara (onde moram, já que deixaram a Cidade de Deus há pouco tempo). Vai ficar lindo”. Quais seriam os sonhos de Rafaela? “Ela quer ser psicóloga. Quer cuidar da cabeça dos atletas”.

Uma prova de que a lição do golpe em falso e a desclassificação nos Jogos Londres 2012 foi mesmo marcante em seu trabalho de recuperação mental. Ela, que sofreu ataques racistas nas redes sociais, pensa em cuidar da cabeça dos colegas. Humildade que aprendeu com a família, valores que a gente traz de casa para os tatames, no caso. Ah, sim, o ‘Seu’ Luiz Carlos chorou. O hino nacional e a filha caçula no lugar mais alto do pódio foram o bastante para, enfim, encher seus olhos de lágrimas. Lágrimas de puro orgulho.

Ao lado da neta, seu Luiz Carlos não segura as lágrimas com o hino nacional (foto: Rio 2016/André Naddeo)

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